Representando um desdobramento de uma pesquisa em nível de mestrado em Ciência da Informação, propomos este trabalho a partir de uma inquietação antiga: a necessidade de apropriação, pela classe subalterna, do seu patrimônio documental – seja dos acervos produzidos e acumulados pelas próprias comunidades em seus contextos específicos, seja daqueles custodiados por instâncias governamentais que pouco ou nada fazem para difundir as informações que registram e acumulam no decorrer de suas atividades. O fato é que o distanciamento mantido entre as pessoas e os acervos arquivísticos sustenta uma estrutura hegemônica que deve ser enfrentada: o desconhecimento e a consequente inação sobre diferentes aspectos da vida em sociedade.
Paralelamente, como alternativa para a promoção do acesso aos documentos arquivísticos, existem diversos tipos de instrumentos de pesquisa (catálogos, inventários, guias etc.), que são elaborados de acordo com o propósito da instituição. O guia – objeto desta investigação – é um instrumento que oferece, por meio de informações básicas, uma visão geral do acervo e da instituição, apresentando um breve histórico, descrevendo os recursos que ela possui e as condições para o acesso aos documentos (LOPES, 2009). É útil, logo, tanto no auxílio aos usuários ativos, quanto para despertar o interesse a novos usuários. No entanto, duas constatações empíricas provocam nossa problematização: 1) São poucos os arquivos que dispõem do guia; e 2) Aqueles que o fazem, oferecem uma versão convencional do instrumento (gênero textual impresso ou, quando muito, disponível no site da instituição – quando existe).
Com isso, uma estratégia contra-hegemônica para uma comunicação popular por meio do guia viria não somente pela sua – tardia – disponibilização no âmbito dos mais diversos arquivos já institucionalizados, mas, especialmente, pela definição de novos formatos e abordagens para a ferramenta no seio de arquivos de organizações populares. Assim, questionamos: Como o guia para usuários de arquivos pode apoiar estratégias contra-hegemônicas de comunicação, contribuindo para a diminuição de assimetrias nas relações de poder em meio às lutas de diferentes comunidades por cidadania?
Para responder à pergunta, apoiamo-nos na noção de Peruzzo (2006), para quem a comunicação popular e comunitária é aquela cujos protagonistas e destinatários são os movimentos e organizações populares, em suas iniciativas coletivas, e que tem como finalidade a educação, a cultura e a ampliação da cidadania. Metodologicamente, caracterizamos o estudo como básico, descritivo e qualitativo, e adotamos, como procedimento, a pesquisa bibliográfica e documental. A análise se ancora no gramscismo como marco teórico, em razão da contra-hegemonia como categoria intrínseca.
Como resultados, esperamos que a discussão evidencie o potencial do guia para usuários de arquivos na luta pela soberania na periferia do capitalismo, considerando-se a diversidade dos usuários da informação e o necessário compromisso ético-político dos arquivistas na formulação de abordagens alternativas para o instrumento – subvertendo-o não somente pelo uso dos diversos meios tecnológicos digitais, mas através de outras estratégias de envolvimento comunitário, tais como a oralidade e as artes de guerrilha (RODRIGUES, 2013). É um movimento que, inferimos, tornará imprescindível a colaboração interprofissional nas áreas de informação, comunicação e cultura.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)